Humus
Humus

Humilde, humilhar e homem o que tem em comum?

A etimologia das palavras nos leva a pensar três palavras que iniciam com a letra "H" ou "h", será que tem mais coisas em comum? Será que é só "ego" ou "sem ego", o que seria comum?

'A etimologia de humildade e de humilde'

'Mário Pereira'

'Esposende, Portugal'

in Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/consultorio/perguntas/a-etimologia-de-humildade-e-de-humilde/34405# [consultado em 05-07-2026]

'Estou incumbido pela minha comunidade de escrever um pequeno texto sobre a parábola de Jesus na qual se refere o convite aos seus discípulos para que sejam sal e luz... E como a primeira parte da minha reflexão me tem levado para a necessidade de o discípulo ter de se humildar, regressar à sua essência – o humus –, assim como o sal, na parábola, deverá "desaparecer" para voltar a ser água, e dar sabor (transformar o mundo, a Humanidade), agradecia uma explicação sobre a origem (e compreensão semântica) da palavra humildade.

Grato pela disponibilidade.'

'Os romanos lançavam mão de vários vocábulos para designar a terra ou o solo: tellus, terra, humus, solum. O primeiro chegou até nós apenas por via erudita, através do adjetivo telúrico, enquanto o terceiro deu origem a húmus (com a variante humo), termo de significado mais restrito do que o seu étimo.

'De humus provém o adjetivo humĭlis, que designava, em latim, tudo o que estivesse perto do solo ou, por extensão de sentido, tudo o que tivesse pouca altura. Servia para qualificar pessoas, animais, plantas e qualquer objeto. Por exemplo, lê-se turris humilis («torre baixa») em César e domus humilis («casa térrea») em Horácio, enquanto Cícero chamava ea quae sunt humiliora às plantas de baixo porte. Virgílio, por seu lado, na Eneida (IV, 255), referindo-se a Mercúrio e comparando-o a uma ave (avi similis), diz que «voa baixo» (humilis volat) «a rasar o mar» (iuxta aequora).

'Este vocábulo, aliás, continua a ser utilizado em latim botânico, na descrição taxonómica das espécies, como atesta William Stearn, na sua obra Botanical Latin. History, Grammar, Syntax, Terminology and Vocabulary (3.ª ed., Newton Abbot, p. 341), que inclui uma lista de tamanhos das plantas, na qual humilis, traduzido por low («baixo»), é o terceiro por ordem crescente, depois de pusillus, perpusillus, traduzidos por very small («muito pequeno»), e de nanus, pumilus, pygmaeus, traduzidos por dwarf («anão»).

'Já em latim clássico apresentava humilis vários sentidos figurados («de baixa condição, obscuro», «que tem sentimentos baixos», «abatido», «desanimado», «pouco importante, fraco»), mas só com os autores cristãos é que assumiu também o significado de «humilde por virtude», passando a designar igualmente aquele que, de forma mais ou menos manifesta, reconhece as suas limitações.

'O referido vocábulo deu em português os adjetivos húmile e húmil, hoje cultismos, o segundo dos quais aparece sob a forma “humil” na primeira oitava de uma Petição feita ao regedor de uma nobre moça presa no Limoeiro da cidade de Lisboa, por se dizer que fizera adultério a seu marido, que era na Índia, escrita por Camões e publicada em 1616, na qual se lê: «A vós, em quem o humil necessitado / Acha sempre favor e amor ardente» (Obra Completa, Rio de Janeiro, Nova Aguiar, 1988, p. 601).

'De humilis provém o superlativo humillimus, que está na origem de humílimo, superlativo absoluto sintético de humilde. Por outro lado, humilis, em latim, deu também origem a humilĭtas («pouca elevação, pouca estatura», «condição baixa, obscuridade, pobreza», «abatimento», «baixeza, pouca importância», «humildade»), do qual provém o nosso vocábulo humildade, bem como a humiliare («abaixar, abater, humilhar»), do qual procede o nosso termo humilhar, e a humilitare (com o mesmo significado de humiliare), que deu origem ao nosso verbo humildar, o qual, por derivação regressiva, deu origem ao nosso adjetivo humilde.

Em suma, existe uma relação etimológica inegável entre humilde, humildar, humildade e húmus. Refira-se, a talho de foice, que o vocábulo homem (através do latim homo, homĭnis) pertence à mesma família etimológica, ou seja, entronca igualmente no latim humus. O adjetivo humanus, porém, apesar das aparências, não pertence à mesma família etimológica, de acordo com alguns especialistas (por exemplo, F. Martin, em Les mots latins, groupés par familles étymologiques, Hachette, 1976, p. 108).'

 

 
Alter ego e cidadania: urbanismo através do espelho

Ana Cândida de Arruda Becker (conclusão pg. 200,201,202)

https://teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8161/tde-26042024-120038/en.html

Arquiteto – Urbanista – Utopista
Subjetividade, alteridade e caráter de inclusão primordial lidam com o projeto coletivo que escapa ao olhar subjetivo, num aprendizado de reconhecimento do Outro.


"O projeto inventado ou criado, inusitado e novo, sai de uma cabeça solitária para iluminar e compreender. Resolve-se em luz e converte a exterioridade em ideia. Para que possamos definir o poder como a presença em um mundo que, por direito, se resolve em minhas ideias. Porém, é preciso ir ao encontro do Outro como feminino, para que o futuro da criança aconteça no além do possível, no além dos projetos. A relação se assemelha àquela que foi descrita para a ideia de infinito: não posso explicá-lo sozinho como explico sozinho o mundo luminoso. Esse futuro não é nem o germe aristotélico (menos que o ser, um ser menor), nem a possibilidade heideggeriana que constitui o próprio ser, mas que transforma a relação com o futuro em potência do sujeito. Minha e não minha, possibilidade de mim, mas também possibilidade do Outro, do amado – meu futuro não cabe na essência lógica do possível." (LÉVINAS,1984, p. 245 )


A transcendência em Ernest Becker se constitui na superação do dualismo, para além da substância, além do ser, além do imanente, e é, ainda assim, intimamente gerada na concepção da vida, da descoberta do outro e, portanto, da alteridade. No
processo, os pais, ou o complexo de Édipo, apresenta sua verdadeira influência na experiência da vida.


"Portanto, esta é uma culpa natural e simbolicamente insolúvel, ou seja, um sentimento profundo de que a própria existência é irremediavelmente transcendida pela prioridade de toda a criação: Se abrirmos nossas sensibilidades para a majestade e o milagre da criação, então devemos “verdadeiramente” desmoronar de joelhos em palpitante medo e pequenez, e em algum tipo de gratidão por ter recebido o “privilégio” transitório de ser apenas um espectador. Isso é o que os fenomenólogos existenciais entendem por culpa “ontológica” ou “traseira”, em oposição à culpa “existencial” ou “circunstancial” – a culpa que brota de nossa história de vida. Mas podemos ver que os dois são inseparáveis: a transcendência dos comandos inibidores dos pais estão enraizados na transcendência ontológica de seu organismo concreto. Não há como a criança, mesmo se tornando o adulto mais maduro e reflexivo, superar a injustiça da decadência e morte do maravilhoso organismo parental – porque é ontologicamente injusto. Mesmo que a criança pudesse absolver-se de qualquer parte na causa dessa decadência e morte, ainda assim a sua injustiça transcende-a e humilha-a. É isto que lhe dá a sensação irredutível de estar vinculado e em dívida, que torna a sua entrega “natural”. "(BECKER, 1969, p. 50)

Transcendência em Aloysio Becker
A mais importante característica da proposta de Edifícios Híbridos, ou Edifícios-pistas, trata do fato de contar com a concepção de uma nova tecnologia da construção que parte do princípio de agregar, na mesma estrutura, as funções de moradia, trabalho ou lazer com a função de passagem ou mobilidade urbana. O fixo e o fluxo da cidade organizados e coordenados na mesma estrutura física e projetados conjuntamente. Na proposta de Aloysio Becker e Oswaldo Beirão, a mobilidade e fluidez são potencialmente enriquecedoras para a trama da cidade, possibilitaria o arejamento e as flexibilizações horizontal e vertical do uso da cidade. Edifícios híbridos para combater o déficit habitacional e de serviços e efetivar o direito à moradia com melhoria na mobilidade urbana. Contava com o desenho de políticas públicas, voltadas à implantação de edifícios híbridos na cidade e hoje apresenta potencial para o desenvolvimento de tecnologia social contemplando as novas possibilidades de trocas e ações de caráter público-institucional ou da organização da sociedade civil.
A pesquisa previa a hipótese de construção de vias inseridas em edifícios (para ciclovias, esteiras rolantes, pistas destinadas a veículos coletivos, entre outros), no subsolo e/ou elevadas. Edifícios híbridos. Híbrido, na linguística, refere-se à palavra formada por elementos de línguas diferentes, uma unidade formada por diferentes culturas.
A dupla de planejadores urbanos desejava desenvolver em parceria com beneficiários, por meio de estratégias de planejamento participativo, projeto de intervenção urbana que incentivasse a diversidade, pela modalidade de tecnologia da construção baseada em edifícios projetados para contemplar ligações entre eles, estas destinadas a diferentes usos, para a passagem de pessoas e produtos, somadas à criação de espaços para moradia, comércio, escolas, hospitais etc.
A segunda característica a ser evidenciada é a busca da alteridade do Outro como base fundante da proposta.
Em 1967, o arquiteto Aloysio Becker via seu projeto como prioristicamente participativo. Desejava que as escolhas partissem do público atingido e beneficiários. A proposta mesma era pensar a cidade de forma não narcísica, não cartesiana.


"Mas olhem para o homem, a criatura impossível! Aqui, a natureza parece ter deixado de lado a cautela e os instintos programados. Criou um animal que não tem defesa alguma contra a percepção do mundo exterior, um animal inteiramente aberto à experiência. Não apenas diante de seu nariz, em seu Umwelt, mas em muitos outros Umwelten. Pode relacionar-se não apenas com os animais de sua espécie, mas, de certa maneira, com todas as outras espécies. Ele pode contemplar não apenas o que é comestível para ele, mas estende seu eu interior ao amanhã, a sua curiosidade é a séculos passados, seus temores a daqui a cinco bilhões de anos. Pergunta se e quando o Sol irá esfriar e quais são as suas esperanças em relação a uma eternidade no futuro. Vive não apenas em um minúsculo território, tampouco em um planeta inteiro, mas numa galáxia num universo em dimensões além dos universos visíveis. É estarrecedor o fardo que o homem suporta, o fardo experiencial." (BECKER, 2021, p. 75)

O trabalho volta à proposição de Aloysio Becker de edifícios híbridos e projeta uma imersão no Metaverso com foco no alter egoísmo, que estrutura o Projeto Transcendência, na busca do infinito e uno, trajeto baseado no amor e na intuição, além
do trabalho direcionado para a comunidade.
O espectador é convidado a buscar a fronteira entre a vida e a morte, a se auto-hipnotizar. Assumimos a mentira, que nos protege do desamparo. Fazemos com que o legado se materialize em ações, ou em outras palavras, nos conscientizamos de que o passado está presente no futuro, susceptível de se revelar como sacralidade cósmica.

Posição:
Estilo: outline

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